Era
da janela que ela olhava o nascer e crescer daquela planta arvorear as margens
do rio Nilo. Apreciando a solidão e imaginando o que se poderia fazer naquela
imensidão verdejante. Podiam se criar coisas: pipas, petecas, bandeirinhas,
caixas coloridas, bolas estampadas; quem sabe chuvas, mas que não fossem gotas,
não queria se molhar. Talvez se construísse um barco para navegar e viver sob
as aventuras do mar ou quem sabe um chapéu que a levasse a Dom Quixote e saísse
a cavalgar. Pensava em um pássaro que a fizesse
voar. Árvore não vira pássaro. Mas seu olhar os viu sair daquele arvoredo e
atravessar a janela. Já não sabia definir se era pássaro, borboletas, gaivotas,
nuvem de gafanhotos ou beija-flor pairando no ar. Era um voo rasante, um
redemoinho. E via avião, carro, chapéu, caderno, livros de histórias, tapete do
Aladim, só faltava a lâmpada para o desejo concretizar; eram nuvens carregadas;
chuvas de papel. O barulho da máquina foi cessando. Seu olhar penetrante. A sua
avó terminará de datilografar. O silêncio se perpetuou novamente, até que a folha
de papel adentrou pela janela e o olhar retoma as margens do rio Nilo onde se
originou o papiro. Sua avó sentada na poltrona, o cigarro a enrolar. Ela ao
lado relembra a folha de papel que se tornou objeto de poder e valor monetário
que compra o cigarro; o papel que ao receber um carimbo oficial ou assinatura
vale mais do que o dito; a folha que se mostra em seu registro de nascimento,
sua identidade; é também o papel que ganha vida e se transforma em livro; o
papiro que usa para lhe escrever e confirmar sua fascinante existência.
Autoria: Cristiane Pralon