16 abril, 2021

Folha de papel

 

Era da janela que ela olhava o nascer e crescer daquela planta arvorear as margens do rio Nilo. Apreciando a solidão e imaginando o que se poderia fazer naquela imensidão verdejante. Podiam se criar coisas: pipas, petecas, bandeirinhas, caixas coloridas, bolas estampadas; quem sabe chuvas, mas que não fossem gotas, não queria se molhar. Talvez se construísse um barco para navegar e viver sob as aventuras do mar ou quem sabe um chapéu que a levasse a Dom Quixote e saísse a cavalgar.  Pensava em um pássaro que a fizesse voar. Árvore não vira pássaro. Mas seu olhar os viu sair daquele arvoredo e atravessar a janela. Já não sabia definir se era pássaro, borboletas, gaivotas, nuvem de gafanhotos ou beija-flor pairando no ar. Era um voo rasante, um redemoinho. E via avião, carro, chapéu, caderno, livros de histórias, tapete do Aladim, só faltava a lâmpada para o desejo concretizar; eram nuvens carregadas; chuvas de papel. O barulho da máquina foi cessando. Seu olhar penetrante. A sua avó terminará de datilografar. O silêncio se perpetuou novamente, até que a folha de papel adentrou pela janela e o olhar retoma as margens do rio Nilo onde se originou o papiro. Sua avó sentada na poltrona, o cigarro a enrolar. Ela ao lado relembra a folha de papel que se tornou objeto de poder e valor monetário que compra o cigarro; o papel que ao receber um carimbo oficial ou assinatura vale mais do que o dito; a folha que se mostra em seu registro de nascimento, sua identidade; é também o papel que ganha vida e se transforma em livro; o papiro que usa para lhe escrever e confirmar sua fascinante existência. 

Autoria: Cristiane Pralon


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